Passeio de trem para Morretes, no Paraná, revela história e belas paisagens no trajeto

Viagens de trem habitam nossa memória como um passeio que permite curtir belas paisagens enquanto se percorre cidades tranquilamente, naquele balanço gostoso, tudo casado no ritmo que Heitor Villa-Lobos traduziu muito bem em ‘Bachianas Brasileiras’. É neste clima de nostalgia, porém revelador, que a viagem de trem de Curitiba a Morretes começa.

Às 8h da manhã, a concentração da Rodoferroviária de Curitiba já é grande. Terceira idade, adolescentes, famílias inteiras e muitos estrangeiros aguardam ansiosos a liberação para o embarque. O trem que percorre os cerca de 74 km do trajeto entre as duas cidades paranaenses é composto por aproximadamente 18 vagões divididos em três classes: econômica, turística e executiva, e administrada pela Serra Verde Express. Além do trem, há o passeio com a Litorina, um vagão único de altíssimo padrão que também faz todo o percurso.

A viagem começa tranquila, atravessando diversas cidades que cercam Curitiba. Por todo o percurso é possível ver muitas araucárias, árvore símbolo da região. A aventura começa na travessia do Túnel Roça Nova, o mais elevado da linha, a 955 metros acima do nível do mar, e com 457 metros de extensão. A escuridão é tanta que é impossível enxergar sequer a pessoa que está sentada ao seu lado.

A natureza é um dos grandes atrativos do passeio. O Brasil tem hoje apenas 7% de Mata Atlântica, sendo que 4% está nesta região. E toda essa exuberância impressiona, não é a toa que este é o segundo roteiro turístico mais visitado do Paraná, depois das Cataratas de Foz do Iguaçu. As paisagens são todas dignas de cartão postal. Entre os pontos altos estão a Represa de Cangaíba, as ruínas das antigas estações, os canyons, a cachoeira Véu da Noiva, o Pico do Marumbi e a ponte São João toda construída em aço, que nos dá a sensação de estar sobrevoando por um grande abismo.

A viagem leva aproximadamente três horas e meia. O trem faz a descida em velocidade reduzida, permitindo que os turistas consigam registrar tudo com detalhes. É possível fazer o caminho de volta com o trem, mas há também a opção de subir com as vans que de hora em hora levam os turistas de volta a Curitiba.

A história da ferrovia

A Ferrovia Curitiba-Morretes-Paranguá guarda muitas histórias começando por sua construção. O projeto inicial ligaria o litoral Paranaense ao Paraguai, mas não deu certo. Em 1880 começou a construção que durou cinco anos. A obra foi um tanto quanto ousada, pois além de ser muito moderna se comparar com a falta de tecnologia da época, foi uma das primeiras a ser realizada sem mão de obra escrava.
A estrada de ferro foi inaugurada em 1885, em Paranaguá, por D. Pedro II, com mais de 40 pontes e diversos túneis. Na década de 60, o túnel de número 13 teve que ser interditado, pois não suportava mais o fluxo de trens e cargas que ficou muito intenso com o tempo. O túnel foi reconstruído e é o único em linha reta de todo o trajeto.

Hoje as atividades da ferrovia se dividem entre o turismo e o transporte de cereais e minerais, uma vez que desemboca no importante Porto de Paranaguá.


Morretes

A viagem pela Ferrovia Curitiba-Morretes-Paranaguá é, de fato, uma viagem no tempo. Depois de cruzar toda a serra do mar, a chegada em Morretes também surpreende, não só pela belíssima arquitetura colonial, mas também pelo calor. A cidade foi fundada em 1721 e a impressão que fica é a de que a cidade parou no tempo. Casarões bem conservados, ruas de pedra, muitas árvores e uma estrutura para receber turistas surpreendente.

E mesmo com toda a paisagem e cultura local, Morretes é reconhecida pela gastronomia – para ser mais exato, por um prato em especial: o Barreado. Aos finais de semana, muitas famílias de Curitiba vão à cidade apenas para saborear a iguaria. O prato, de origem açoriana, começou a ser preparado no século 17 e desde esta época preserva todo um ritual. O Barreado é uma espécie de ensopado de carne, mas diferente dos convencionais, pois fica no cozimento por aproximadamente vinte horas. O prato é acompanhado por arroz, farinha de mandioca e banana.

Morretes ainda guarda outras curiosidades. Rica na plantação de gengibre, lá você pode saborear um delicioso e tradicional sorvete de gengibre, além de provar a famosa cachaça de banana. A cidade também é um atrativo para quem gosta de passeios mais radicais, começando pelo rafting no Rio Marumbi, que divide a cidade. É possível também praticar montanhismo, trilhas com cachoeira e passeios de bike.

Se for a Morretes de trem, não esqueça de levar uma mochila com uma troca de roupa leve, pois a mudança de clima entre Curitiba e Morretes pode ser um pouco brusca. Água, protetor solar e repelente são fundamentais. E junto com a disposição, a câmera fotográfica é obrigatória neste passeio.

Como Chegar

Partindo de São Paulo de carro, acesse a rodovia BR 116, sentido sul. De Florianópolis, siga pela BR 101. De Porto Alegre, pegue a BR 116, sentido norte. Caso vá de ônibus, quem faz a viagem é a viação Itapemirim (www.itapemirim.com.br), que tem ônibus partindo de diversas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Bahia com destino a Curitiba. Para ir a Curitiba de avião, há voos diários partindo das principais capitais do país operados pela TAM (www.tam.com.br), Azul (www.voeazul.com.br) e Gol (www.voegol.com.br).

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Ilha do Mel, Reserva da Biosfera paranaense, marca por suas trilhas, praias e morros verdes

A Ilha do Mel, no litoral do Paraná, possui um status especial entre os destinos do ecoturismo. É uma Reserva da Biosfera, título reconhecido pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). Calma: não significa que o visitante precise desembarcar em suas praias com roupa de gala ou de grife, para reverenciar a situação. Significa, sim, que a preservação do rico ecossistema é importante para o mundo, não apenas para a região ou o país.

O conjunto de mar, morros, costões, manguezais, brejos litorâneos e restingas da mata atlântica convida alongas caminhadas, boa parte delas em trilhas bem sinalizadas. O único meio de transporte terrestre é a bicicleta. Não há cavalos puxando carroças. Automóveis, jardineiras? Nem pensar.

Dividida em duas unidades de conservação da natureza –Estação Ecológica e Parque Estadual–, a Ilha do Mel é administrada pelo IAP (Instituto Ambiental do Paraná), que controla o acesso de turistas. Uma pulseirinha com código de barras deve entrar em vigor ainda em 2008. A lotação máxima é de 5.000 pessoas, marca raramente atingida.

O controle e o cadastro dos visitantes são feitos no terminal de embarque de Pontal do Sul, um balneário de Pontal do Paraná, ou no terminal de embarque de Paranaguá, o município a que a ilha está vinculada. De lá os barcos partem para as vilas de Encantadas, ao sul, ou de Brasília, ao norte, que concentram a estrutura de pousadas, restaurantes, postos de saúde e de informações, com mapas.

São paisagens distintas, no tipo de movimentação da orla, nas praias e nas opções de lazer, que se complementam. Quem decide ficar em Encantadas, por exemplo, tem um trapiche imponente recortando o horizonte, a Gruta das Encantadas ao final da mais tranqüila das trilhas e o Mar de Fora, com uma confortável praça de alimentação, disponível para mergulho e surfe.

A opção por Brasília (ou Nova Brasília) traz a proximidade das principais construções históricas: o Farol das Conchas e a Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres. E também a diversidade das praias, sendo que as da Fortaleza, do Farol e Praia Grande contam com pousadas.

Para muitos, o charme do lugar, procurado especialmente nos feriadões, vem da rusticidade e da sensação de isolamento. A iluminação elétrica, antes a diesel, chegou em 1998 (ano de Copa do Mundo), por cabos submarinos. Como na vila de Jericoacoara, no Ceará, não há postes de iluminação pública, e é sempre uma aventura caminhar à noite, de lanterna na mão, por ruelas e pontezinhas. O breu esconde o verde luminoso da vegetação durante o dia. Com chuva, adiciona-se lama aos trajetos.

Os surfistas e a garotada de porte atlético, com saúde para trilhas morro acima, ajudam a caracterizar o público deste refúgio incluído na programação de festas de formaturas de estudantes, quando a vida noturna se agita com forró, reggae e rock (os decibéis são limitados a 70). Bares e restaurantes adotaram no cardápio o chamado ‘prato surfe’, com arroz, saladinha, batata frita, carne ou camarão.

Mas a visitação pode ser mais democrática do que parece. Fora da estrutura de descanso das pousadas, algumas com piscinas e chalés, famílias com crianças e grupos da terceira idade têm à disposição passeios de barco, como o que vai de Encantadas até Brasília e vice-versa e outros que fazem a volta completa à Ilha. Trilhas fáceis como a da Gruta das Encantadas e a do Farol são para qualquer idade ou preparo físico. Interessados em geologia e biologia, por exemplo, não ficam a ver navios na baía de Paranaguá. Existe todo um catálogo a observar: os migmatitos na Gruta e na Fortaleza, os diques de diabásio próximos do Farol, falésias, piçarras e areias negras na praia da Fortaleza.

Algumas agências de turismo incluem a programação de um dia na Ilha do Mel em pacotes para cidades paranaenses. Manhã e tarde são suficientes para um banho de mar, um passeio curto de barco, uma trilha na mata até uma praia mais deserta e passagens pelo Farol, Fortaleza e Gruta. Mas passar a noite, claro, reserva boas surpresas.

Dias a mais permitem imagens diferentes do pôr-do-sol, nos vários recortes da ilha em formato de baleia. Vale a pena perder-se pelas ruelas estreitas (de dia!), descobrir aos poucos as engenhosas soluções dos ilhéus para as casas de madeira no meio das árvores. Não esqueça o kit básico de sobrevivência: chapéu, óculos escuros, repelente para mosquitos, protetor solar, mangas e calças compridas de fácil secagem, sandálias e tênis antiderrapantes.

Leve também dinheiro (não há caixas eletrônicos) e remédios para emergências (não há farmácias). E não custa comprar um maiô novo para estrear na Reserva da Biosfera. Uma homenagem mínima à preservação do planeta.

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Querida do turismo de negócios, Curitiba valoriza parques e praças e sedia festivais culturais

Capital sulista, de frio intenso no inverno, Curitiba lembra Buenos Aires e cidades européias na valorização e na beleza de seus parques e praças. São dezenas de áreas verdes, de todos os tamanhos, com atrações que se multiplicam. Lagos, chafarizes, jardins, trilhas, mirantes e quedas d’água iluminando pedreiras, museus, aves, peixes, pontes, esculturas, brinquedos infantis. Parques e praças curitibanos mudam de cor a cada estação e enchem os olhos dos turistas.
A metrópole paranaense tem 1,8 milhão de habitantes e, segundo pesquisa da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisa Econômica) da USP (Universidade de São Paulo) em 2007, é a terceira cidade brasileira mais procurada por estrangeiros para o turismo de negócios e eventos. No topo deste ranking estão São Paulo e Rio de Janeiro. Contribuem para a destacada posição as redes hoteleira e gastronômica, os serviços de transporte público e inovações arquitetônicas, como a integração de centros de convenções a shopping centers. Fica tudo perto, fácil, rápido.

Os parques também divulgam a marca da imigração. O Bosque Alemão homenageia os pioneiros de 1833 e o Bosque do Papa celebra os poloneses e a nacionalidade de um visitante ilustre, Karol Wojtila, o papa João Paulo 2º. O primeiro de todos os parques da cidade, o Passeio Público, de 1886, guarda o Memorial Árabe, enquanto o Parque Tingüi abriga coleções de pessankas (o ovo pintado, símbolo da ressurreição) e imagens sacras no Memorial Ucraniano. No Paraná residem 90% dos ucranianos e descendentes que estão no Brasil.

Bowkalowski, Wolochtchuk, Kulczynskyj, Leminski, Rischbieter, Modkowski, Kozak, Krajcberg, Recchia, Stellfeld. Em qualquer sala de aula de Curitiba há uma lista de chamada composta de tais sonoridades. Os sotaques e as culturas dos imigrantes impregnam a visita a esta cidade brasileira de gostos e ritmos internacionais. As copiosas refeições italianas no bairro Santa Felicidade têm banquetes eslavos como concorrentes, no Setor Histórico. Na programação regular de espetáculos há flamenco e danças polonesas.

E, para beber, vodca. Nem o vinho dos gaúchos, nem os chopes dos catarinenses. De fabricação regional, russa ou finlandesa, a vodca ajuda a enfrentar o clima subtropical. Mesmo nos meses de verão a temperatura pode baixar de 20ºC. E, no inverno, chega a zero ou menos nas madrugadas.

Não é difícil conhecer parte de Curitiba em passeios a pé, por conta das calçadas largas, arborizadas, e das ruas e avenidas bem sinalizadas. Mas não dispense os ônibus, que compõem a identidade da capital. A praça Rui Barbosa, por exemplo, concentra dezenas daqueles tubos transparentes para embarque e desembarque. As linhas são integradas num único bilhete. Aos domingos, as passagens têm desconto.

Linha Turismo é um serviço especial, mais caro e confortável, que funciona de terça a domingo. O ônibus percorre 25 pontos de interesse em duas horas e meia, sendo que o bilhete dá direito a quatro reembarques. Vale a pena fazer o trajeto logo no primeiro dia na cidade, para ter uma idéia das distâncias. Cartão-postal com estufa e canteiros geométricos, o Jardim Botânico está entre os mais concorridos. O Teatro Guaíra surge no roteiro logo após o Mercado Municipal. Parecem estar próximos, mas uma caminhada se revela longa, são dez quarteirões. A Ópera de Arame fica a meia hora, de ônibus, da Torre Panorâmica, uma torre de telefonia com mirante circular a 105 m de altura. Os horários afixados nas paradas ajudam a programar quantos e quais pontos visitar num dia.

Festivais culturais

Curitiba também ganhou fama pela qualidade de seus festivais culturais. Já com década e meia de existência, o Festival de Teatro funciona como encontro marcado da classe artística, de vários Estados, a cada mês de março. Outras celebrações anuais coletivas com público cativo são o Festival Espetacular de Teatro de Bonecos e a Oficina de Música. Para quem está de visita, todos oferecem a chance de conhecer o variado cardápio de salas de espetáculo, das pequenas às portentosas, como o Guairão, com 2.173 lugares, e o Teatro Vitória, com 1.500 lugares.

Boa parte do patrimônio histórico é relativamente recente. Nos anos 50, surgiu a primeira sala do Teatro Guaíra, o Centro Cívico e o Mercado Municipal. A Rua das Flores, primeiro calçadão do Brasil, foi fechada nos anos 70, mesma época dos projetos do parque Barigüi e da Rodoferroviária. A Ópera de Arame foi inaugurada nos anos 80; os parques Tanguá e Jardim Botânico, nos anos 90, pouco antes da moderna Arena da Baixada.

O século 21 trouxe dois presentes na área dos museus: o Museu Oscar Niemeyer e o Espaço Perfume. O primeiro deixa o visitante em êxtase antes da entrada, quando ele se depara com a torre monumental e os grandes vãos livres da primeira ala projetada por Niemeyer. Dá vontade de fazer como as crianças e apostar corrida no piso, ou na rampa. Por falar em crianças, as famílias não se vêem em apuros para entreter os pequenos. Brinquedos e bichos em parques e praças dão conta do recado -o Barigüi tem até parque de diversões.

Curitiba se prepara há décadas para receber bem o turista. Entre os confortos recentes está a programação cultural do mês disponível na Internet, com a agenda antecipada de shows de música, festas, teatro, artes visuais. Dependendo do evento, dá para chegar lá com o ingresso garantido. Ou pelo menos com o horário e o endereço certos na mão.

E não se assuste com a cordialidade incomum de taxistas, recepcionistas, garçons, vendedores. Eles usam frases do tipo ‘permite que lhe ajude?’, ‘desculpe interromper, mas…’, ‘gostaria de receber mais informações?’, ‘posso sugerir um passeio?’. Uma educação ancestral, discreta, sob medida para demonstrar que o recém-chegado é bem-vindo.

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A Amazônia se revela em Rio Branco, por meio de um povo que vive em sintonia com a floresta


Em 1882, um arbusto de uma árvore conhecida como gameleira chamou a atenção de um explorador cearense que subia o rio Acre, levando-o a abrir ali mesmo um seringal chamado Volta da Empresa. Mais de um século depois, a centenária árvore, com mais 20 metros de altura e 2,5 metros de diâmetro, permanece intacta e marca o exato lugar onde nasceu Rio Branco, a capital do Acre.

Apesar de destino pouco procurado pelos turistas, a cidade tem muito a oferecer. Nos últimos anos, governo e instituições privadas têm investido na revitalizaçãodas suas construções históricas, na criação de novos espaços de lazer e cultura e na valorização do saber tradicional da sua gente, que convive com a maior floresta tropical do mundo, a amazônica.

Visitar a capital acreana significa conhecer episódios importantes da história do norte do Brasil: a selva desbravada por valentes nordestinos nos tempos áureos da extração da borracha, a saga de um povo que lutou para ser brasileiro e o sonho de Chico Mendes (1944-1988), um líder assassinado em nome da luta pela conservação do meio ambiente e pela união dos povos da floresta.

Cortado pelo rio Acre, a cidade tem seu centro dividido em duas partes, denominadas primeiro e segundo distritos. À margem direita, estão as primeiras construções, depois que o seringal virou povoado, e nela se estabeleceu o comércio que serviu para abastecer as embarcações que transportavam o “ouro negro”, no início do século passado. A antiga área portuária, conhecida hoje como calçadão da Gameleira, foi reurbanizada, e seus casarões transformados em bares, restaurantes e centros culturais, tornando-se o principal ponto de encontro das noites quentes da cidade. Do outro lado do rio, o Mercado Velho é outra atração que faz parte do projeto de restauração dos espaços históricos.

O acreano tem orgulho da sua história, que começa em 1895 quando uma comissão demarcatória definiu os limites entre Brasil e Bolívia. Determinou-se que a Bolívia ficaria com uma região rica em látex, na época ocupada por brasileiros. O governo boliviano pretendia expulsar a população e entregar o território às poderosas empresas estrangeiras que exploravam a borracha. O desejo da elite regional de incorporar essas terras ao Brasil desencadeou conflitos armados conhecidos como Revolução Acreana, que resultou na criação do Estado Independente do Acre, em 1903. O nome da cidade é uma homenagem ao diplomata Barão do Rio Branco, que teve papel fundamental nesse processo. O território permaneceu nessa condição política até a sua elevação a federação brasileira, em 1962. Para conhecer os detalhes dessa história, o Memorial dos Autonomistas reúne um acervo de fotos, esculturas e quadros sobre esse período de revoltas.

Quando se fala em Acre a primeira idéia que vem a cabeça é a luta do seringueiro e ativista ambientalChico Mendes (leia a biografia). Vale se deslocar até a cidade do líder, Xapuri (a 188 km da capital), para conhecer a sua casa, que, apesar de ter passado por uma reforma, preserva as suas características originais.

Mas a história do Acre não se resume à exploração da seringa. Muito antes de o território ser ocupado por seringueiros cearenses e comerciantes sírio-libaneses, o lugar era habitado pelos povos indígenas. Inclusive, o nome do Estado surgiu da tradução da palavra aquiri, que significa “rio dos jacarés” na língua nativa dos índios apurinãs, um dos grupos originais da região. A Biblioteca da Floresta Ministra Marina Silva tem, entre seus objetivos, preservar a memória cultural desses povos. Para entrar de cabeça, agências locais também oferecem roteiros até algumas comunidades.

A população de Rio Branco, que tem cerca de 300 mil habitantes, é resultado da mistura de índios, nordestinos, negros e árabes. E, apesar da mescla, cultiva um profundo sentimento de identidade cultural, que é chamado pelo próprio povo de “acreanidade”. Outro termo surgido no Acre é aflorestania, união das palavras “floresta” e “cidadania” e que serve para descrever as diversas formas de se viver na Amazônia. Uma expressão muito forte dentro desses dois conceitos é o Santo Daime, uma religião nascida na floresta do Acre.

A capital mais ocidental do país também é a porta de entrada para a integração com os vizinhos andinos Bolívia e Peru. Com a construção da rodovia Interoceânica, que liga Rio Branco à cidade inca de Cusco, no Peru, a Secretaria de Turismo do Estado resolveu promover o roteiro Caminhos do Pacífico, que convida o visitante a desfrutar de uma viagem com uma paisagem única: a transição entre a Amazônia e os Andes.

Rio Branco representa um pedaço do Brasil ainda desconhecido. De tão distante, o dicionário “Aurélio” um dia usou a expressão “ir para o Acre” como sinônimo do verbo morrer. Mal sabia Aurélio que o lugar significa vida: 90% das florestas, rios e lagos do Estado estão preservados e alguns pesquisadores afirmaram que a área concentra a maior biodiversidade do planeta. Para acabar com esse mal entendido, o povo da floresta convida a todos a conhecer como se vive em harmonia com a natureza.

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Região produtora de sucos e vinhos no Rio Grande do Sul, Vale dos Vinhedos traz histórias e sabores da Itália


A uva, esse objeto redondo de desejo, move a indústria e o turismo gastronômico no Rio Grande do Sul. O Estado produziu 634 milhões de quilos de uva na safra de 2008, segundo o Ibravin (Instituto Brasileiro do Vinho). É cacho para encher estádios, colhidos em propriedades pequenas, médias ou grandes. Quase 90% das empresas vitivinícolas gaúchas estão localizadas ao norte, na Serra, no Vale dos Vinhedos e cidades vizinhas. A paisagem bonita, que lembra a Itália nas colinas com parreirais, na arquitetura e nos sotaques dos descendentes de italianos, recebe milhares de turistas a cada estação para degustar vinhos, espumantes, sucos de uva e produtos coloniais como queijos e salames.

Tudo acontece nas próprias vinícolas, que abrem suas portas, na zona rural, para leigos e especialistas no tema da enofilia, que é o amor pelo vinho. Mesmo uma degustação rápida vai testar as diferenças de sabor de uvas como a Tannat, a Cabernet Sauvignon e a Merlot, para os tintos, ou Chardonnay, Malvasia e Riesling, para os vinhos brancos. Uma visita guiada pode apresentar os métodos de fabricação de espumantes, como o charmat (refermentação em tanque) e o champenoise (refermentação na garrafa). Num curso ou conversa mais longa com enólogos, o visitante descobre que bouquet não é flor no plural, mas a sensação olfativa que um vinho mais complexo deixa experimentar, como aroma de pimenta ou cravo. Basta um final de semana na companhia de barricas de carvalho para o turista segurar a taça de outro jeito e começar a cheirar até rolha.

O chamado Vale dos Vinhedos compreende áreas dos municípios de Bento Gonçalves, Garibaldi e Monte Belo do Sul, a cerca de 130 km de Porto Alegre. Próximas dali, as cidades de Flores da Cunha, Caxias do Sul e Farroupilha também são importantes produtoras de uva. Bento Gonçalves é ponto de partida também para um roteiro especial, Vinhos de Montanha, no distrito de Pinto Bandeira, enquanto um circuito diferente mas de nome parecido, Vinhos dos Altos Montes, visita cantinas de Flores da Cunha e Nova Pádua.

Para quem vem de longe, alugar um carro permite circular entre dezenas de vinícolas nas rodovias e “linhas”, as estradinhas sinuosas, e ainda conhecer recantos mais exclusivos, com as casas e sobrados dos Caminhos de Pedra, projeto que preserva as origens dos primeiros imigrantes italianos, erguidas no final do século 19 e começo do século 20. Tem a Cantina Strapazzon, de 1880, toda em pedra irregular, a Casa Merlin, com 43 janelas e portas nas fachadas, a Casa das Massas, de 1935, com restaurante e degustação de chá e biscoitos, em três andares de madeira, e várias outras para visitar ou apenas registrar na memória, nas fotos.

Considerando o poder etílico do enoturismo, uma alternativa de transporte são os traslados das agências de receptivo, cujos passeios de um turno ou dia inteiro propõem uma combinação de vinícolas, restaurantes, lojas e lugares históricos, como a Igreja São Bento, em forma de pipa gigante. Dá para misturar tintos, brancos, espumantes e grappas nas degustações, sem medo de precisar dirigir na volta. Existem pacotes que privilegiam a alta gastronomia, em jantares exclusivos, com a presença de chefs e sommeliers.

Principal produtora de vinhos e espumantes do Brasil, a região do Vale dos Vinhedos obteve em 2007 o reconhecimento, pela União Europeia, de seu Selo de Indicação de Procedência. Desde então, com o selo de qualidade IPVV colado no gargalo, cresceram a participação e a premiação dos vinhos gaúchos em concursos internacionais. O know-how é longo: a primeira cooperativa vinícola brasileira surgiu ali, nos anos 30 do século 20. As uvas e o trabalho braçal para fazer o vinho deram a primeira indústria para Caxias do Sul e região. A cidade celebra a sua Festa da Uva desde 1931, há quase 80 anos.

Essa tradição ampliou os roteiros turísticos e criou uma diversificada estrutura de hospedagem. Há pousadas simples ou luxuosas, hotéis com instalações modernas e o sonho de consumo de qualquer amante do vinho: a hospedagem na própria vinícola, com vista desde a janela do quarto para as curvas sem fim dos parreirais, que ficam especialmente animados na época da colheita, de janeiro a março.

No extremo Sul, cada estação do ano traz temperaturas diferenciadas. Visitar as vinícolas de junho a agosto agrega o charme extra da neblina e do frio, convidando os visitantes a se demorarem diante da fartura das refeições nas cantinas. As temperaturas amenas do outono e primavera facilitam a vida nas trilhas a pé, de bicicleta e o circuito das atividades ao ar livre no Vale do Rio das Antas, especialmente o rafting. Os meses de calor tornam mais atraentes as borbulhas geladinhas da Rota dos Espumantes, e quem visita o Vale dos Vinhedos de novembro a janeiro pode espichar a viagem até Gramado e Canela, a 120 km, para conferir a decoração ultraespecial de Natal.

Mas são os meses da colheita, de janeiro a março, os mais divertidos. Eles coincidem com as maiores festas, a Fenavinho, em Bento Gonçalves, e a Festa da Uva, em Caxias. Junto com pelotões de moradores, os turistas também podem botar a mão na massa, ou melhor, nos cachos que enchem os cestos rumo às fábricas. É a hora de descobrir todos os roxos, rosados e verdes do universo, os aromas, açúcares e texturas dos grãos, notar que uvas comuns fazem os vinhos de mesa e uvas nobres são reservadas para vinhos finos. Na vindima, os parreirais que exibiam os galhos secos no inverno explodem em cores e cheiros. Acostumados com a beleza da paisagem, com aquela Toscana subtropical no quintal de casa, os trabalhadores ainda temperam a colheita bebendo vinho desde a manhã, nos lanches com pão, salame e queijo antes do almoço.

Em qualquer época do ano, não custa trazer na bagagem uma certa disposição para ficar alegre no Vale dos Vinhedos. As altitudes superiores a 650 m da região estimulam a observação das coisas sob outros pontos de vista. Uma síntese da alegria se exibe nos trajetos de uma hora e meia da Maria Fumaça, em que atores, músicos e dançarinos interagem com os passageiros.

O vinho revela, já diziam os filósofos da Antiguidade, milênios antes da qualidade da bebida de Baco (para os romanos) ou Dioniso (para os gregos) começar a ser medida com pontos e decimais. Revela afetos, angústias, talentos insuspeitos. É comum ver gente dispensar a sobremesa do sagu para sair bailando nas cantinas. Já aconteceu de turistas pedirem garçons e músicos em casamento, ou vice-versa. Volta e meia alguém repete a taça, ganha coragem, sai da mesa e pede à banda para tocar o acordeão de sete baixos, um tango ou uma valsa do folclore alemão, para variar o repertório de tarantelas. A animação ali resulta de uma assemblage de humores, dos colonizadores italianos, esses românticos, e da irreverência local, que elege qualquer tema como motivo de gozação, de trocadilho. É claro que até o final do dia alguém vai dizer que os hóspedes do spa do vinho saem de lá se sentindo umas uvas.
Você que gostou bastante da Região Produtora de Vinho e Suco em Rio Grande do Sul.

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Frio da Serra Gaúcha combina com vinho, chocolate e com as culturas alemã e italiana


Com sorte, imagens de um estranho Brasil com nevesão flagradas em cidades gaúchas e catarinenses, de junho a agosto. São instantes que ganham aplauso e gritaria de moradores e turistas. Nunca é garantido que vai nevar. Quando os flocos de gelo dão o ar da graça, os bem agasalhados fazem festa.

Na Serra do Rio Grande do Sul a neve pode tardar ou falhar, mas o frio se faz presente no inverno, primavera, verão e outono.

Mesmo em janeiro, em Gramado, a 110 km de Porto Alegre, a temperatura à noite pode baixar de 10º C. E com o frio se mantêm, nas quatro estações, os apelos para prolongar o prazer: o vinho e as copiosas refeições herdadas de colonos italianos e alemães.

O tradicional churrasco é bem-vindo na orgia gastronômica, mas sem botar banca de protagonista. A mesa farta que impressiona visitantes tem duas estampas principais: a da cantina italiana e a da refeição sem fim que são as dezenas de especialidades de um café colonial. Nas duas, vinho. Vinho com pão, salame, tortei, capeletti. Vinho com nata, cuca de côco, apfelstrudel, torta de limão.

São dois núcleos turísticos na região formada por dezenas de municípios. Na chamada Região das Hortênsias estão Gramado, Canela e Nova Petrópolis. No Vale dos Vinhedos, as cidades de Bento Gonçalves, Garibaldi e Carlos Barbosa concentram as atrações. Como são roteiros próximos, a cerca de uma hora e meia de carro ou 100 km de distância um do outro, dá para conhecer os dois em poucos dias de viagem.

Há diferenças importantes, a começar pela paisagem. Na terra das vinícolas, as parreiras se carregam de cachos, verdes, roxos e rosados, de outubro a dezembro. No inverno, só aparecem os esqueletos da plantação. Na terra das hortênsias, estas plantas ornamentais vão colorir de azul, branco e rosa as estradas e jardins, a partir de outubro, durante meses, se a chuva comparecer.

A 120 km da capital, Bento Gonçalves é o éden dos enófilos. Já Gramado e Canela têm maior infra-estrutura de hotéis, pousadas, cafés e restaurantes, e vários de seus museus, parques e festivais divertem famílias com crianças. Os dois roteiros podem ser bastante românticos. O frio e a visão das montanhas ajudam.

Hortênsias e Kikitos de chocolate
Surgem em alemão, alguns alertas para o turista.Nicht rauchen, por exemplo: não fume. Um singelo galpão será apresentado na placa comowagenschuppen. Os cardápios trazem opções desalzkartoffelneisbein e kartoffelküchelchen, respectivamente batata a vapor, joelho de porco e bolinho de batata. E o passeio vai ganhando em densidade, se não filosófica, pelo menos lingüística.

Em Gramado, a cultura dos descendentes de alemães se faz acompanhar dos colonos italianos e portugueses, entre outras imigrações de origem européia, mas para o turismo é oapelo alemão que sobressai. Ele está na arquitetura, no folclore, na gastronomia e mesmo na vegetação importada, como a que circunda o Lago Negro, referência à Floresta Negra alemã.

Talvez a obra de arte mais comovente, entre as movidas pelo desterro, seja a do museu do Minumundo, uma coleção de miniaturasiniciada por um pedreiro alemão que precisou emigrar, com a mulher, após a Segunda Guerra. Otto Hoppner ergueu pedaços da sua Europa perdida perto de casa: são miniaturas detalhadas de igrejas, castelos, ferrovias e prédios públicos, realizadas e conservadas com um carinho monumental.

Estão lá, em cores, povoados por bonequinhos de plástico, construções históricas de Urach, Alsfeld, Lübeck (a cidade natal do escritor Thomas Mann), Lichtenstein, Freiburg, Leer, Michelstadt, Munique.

Até o espetacular Castelo de Neuschwanstein ganhou uma caprichada miniversão. A vaca que mexe a cabeça no vagão com feno tem o tamanho de um dedo mínimo, e ela ainda muge, fazendo coro aos sinos das igrejas. Há roupas no varal nas casas pequeninas. Otto Hoppner faleceu aos 74 anos, em 1986, e deixou para Gramado essa contribuição permanente ao clima de conto de fadas que toma conta da cidade, em eventos como o Festival de Cinema e o Natal Luz.

Festival de Cinema existe desde 1973. Os moradores lembram de um ator de grande fama e pequena estatura que reunia grupos em torno de si para contar histórias, nas calçadas. Era o Grande Otelo! Mais recentemente, as celebridades da hora da indústria de TV e cinema aterrissam no Palácio dos Festivais para algumas horas de estadia. Dão autógrafo, fazem a foto no tapete vermelho. E não têm tempo para contar histórias.

Natal Luz dura dois meses, de novembro a janeiro, e faz do verão outra alta temporada para a Serra Gaúcha. Por conta da iniciativa, o Parque Aldeia do Papai Noel passou a funcionar o ano inteiro, como as fábricas de chocolate da região. Na Região das Hortênsias, consome-se fondue suíço e chocolate quente em fevereiro, e decoração natalina em junho. E nos demais meses do ano também.

Vale dos vinhos, sucos e espumantes

Em Bento Gonçalves, a 670 m de altitude, o vinho movimenta as montanhas e a fé. A Igreja São Bento tem formato de pipa de vinho. O pórtico da cidade é uma pipa de 17 m de altura. Algumas caixas de lixo reciclável se parecem com barricas de vinho. Inclusive algumas vinícolas convidam à degustação dentro de barris centenários. E a linha turística de trem que liga Bento, Garibaldi e Carlos Barbosa também se chama Ferrovia do Vinho.

O divertido passeio de uma hora e meia na Maria Fumaça sintetiza uma das marcas da região, que é o entusiasmo da cultura italiana. Parece que as pessoas ficam alegres antes mesmo de começar a beber. Se em Gramado alguns sites de pousadas abrem com música clássica, na terra dos Tomasini, Bertarello, Cantelli, Ferri e Strapazzon a trilha sonora é outra, movida a tarantela, dança folclórica do sul da Itália. No passeio de trem sobram convites para beber, dançar, cantar, rir dos atores, tudo ao mesmo tempo, sem descer do vagão.

Principal produtora de vinhos e espumantes do país, a região do Vale dos Vinhedos obteve em 2007 o reconhecimento, pela União Européia, de seu Selo de Indicação de Procedência. O know-how é longo: a primeira cooperativa vinícola brasileira surgiu ali, nos anos 30.

Algumas casas abrem a colheita para visitação. Os colonos começam a trabalhar cedo. Ali por volta das 10 horas, fazem a pausa para o lanche: vinho, salame e queijo. No almoço, mais vinho. No jantar, de novo.

O Vale dos Vinhedos se faz conhecer por meio de degustações rápidas nas vinícolas, cursos dedegustação e também nos passeios por construções centenárias, como os Caminhos de Pedra, que recupera a história da colonização do Brasil Imperial. A partir de 1875, foram demarcados 200 lotes de 48 hectares cada para as famílias de imigrantes italianos.

Muitos se instalaram provisoriamente em barracões onde entrava chuva e vento, e começaram a plantar sem ferramentas. Histórias da imigração são dramáticas no mundo inteiro, como as de refugiados de guerra.

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São José dos Ausentes recebe visitantes com riqueza da cultura local e belas paisagens

Vocês fiquem à vontade! É sempre assim que os turistas são recebidos em qualquer uma das fazendas da região dos Campos de Cima da Serra, uma área de paisagens deslumbrantes em meio a paredões e cânions. É lá que se encontra uma pequena cidade que chama a atenção por um nome, no mínimo, curioso: São José dos Ausentes.

Mas qual seria a origem? Conta-se que data do século 18, quando aquele lugar era conhecido como a ‘Fazenda dos Ausentes’, maior latifúndio do Rio Grande do Sul, com mais de mil km² de área. Leiloadas por duas vezes, os donos nunca assumiram as terras e não havia sucessores. Os últimos arrematadores foram três paulistas, que venderam ao comerciante português Antonio Manoel Velho, que começou o desenvolvimento local.

Fazer com que o visitante se sinta em casa parece ser a principal preocupação dos moradores, que se esforçam de todas as formas para agradar. O turismo rural é um dos principais atrativos de lá e os meios de hospedagem funcionam nas fazendas, transformadas em pousadas acolhedoras, atendidas pelos próprios proprietários.

Tudo é muito simples e encantador. O visitante entra em contato com a vida e os costumes do gaúcho serrano, acompanhando as lidas campeiras, como a ordenha das vacas e o recolhimento do gado. As rodas de chimarrão, os bolinhos caseiros, os queijos e as boas histórias transformam a convivência de turistas e proprietários em grandes amizades. E como se come bem!

Na divisa com Santa Catarina, São José dos Ausentes é uma das cidades mais frias do Rio Grande do Sul. Portanto é bom estar prevenido mesmo no verão, pois as temperaturas podem ser bem rigorosas. O fenômeno da viração (diferença de pressão entre o litoral e os campos de cima da serra, que faz com que uma grande quantidade de nuvens suba em direção ao cânion) ocorre quase que diariamente, e é um grande espetáculo. Lá se destacam também o rico manancial hídrico (de onde brotam as nascentes de rios cristalinos) e a presença de belas aves, como a corucacas, (símbolo do município), o cacará, a siriema, o jacu e a gralha azul, entre outras.

Cenários para TV

Tonico e Rosane Nakes formam um simpático casal típico da região. Engajados na preservação da natureza e da cultura local, eles transformaram a fazenda que pertence à família há várias gerações em uma confortável pousada rural. Um belo dia, uma proposta da rede Globo mudou a rotina da família e a propriedade se tornou um dos cenários da novela ‘O Profeta’.

O velho galpão dos fundos da casa foi transformado no lar do personagem principal da trama, e até hoje mantém a decoração, funcionando como um pequeno “museu”, que abriga ainda vários objetos que retratam a cultura local. Embora a história da novela se passe no interior paulista dos anos 50, os gaúchos se orgulham de terem emprestado a beleza de seus cenários para a televisão. Paisagens que já eram famosas por também terem estado na minissérie ‘A Casa das Sete Mulheres’.

Na sala da casa de madeira, típica da região, um mural com fotos é a forma de guardar a recordação e mostrar aos visitantes a passagem da produção da emissora. Samuel, filho dos proprietários, conta curiosidades e fala sobre os bastidores das gravações, que acompanhou de perto, atuando até como dublê.

Outras fazendas da região também mostram suas relíquias e fotos. Na Monte Negro se hospedaram os artistas e nas pousadas Aparados da Serra, Potreirinhos e das Araucárias ficaram as equipes de produção.

Graxaim Carçado

Há mais de uma década a pesca esportiva de Truta Arco-Íris (flyfishing) atrai amantes do esporte de várias partes do mundo para a região do rio Silveira. E já criou uma divertida lenda narrada pela população local. Eles contam um fato estranho que aconteceu no dia 27 de julho de 1997, data da primeira Expedição de Pesca da Truta Arco-Íris.

Naquela fria manhã, dezenas de pescadores se reuniam no rio Silveira em busca das famosas trutas. Foi então que um pescador, na ânsia de logo colocar os trajes de pesca, esqueceu um par de botinas na beira do rio. Encerrada a pesca, ele as procurou e nada!

Meses depois, o dono da estalagem disse ter visto um Graxaim (animal típico da região) calçado com um par de botinas nas patas dianteiras. Desde então o bichinho se tornou uma espécie de guardião do rio, afugentando os pescadores furtivos e as lontras que teimam em matar as trutas.

Principais atrações

Cachoeirão dos Rodrigues É um dos mais belos cartões-postais de São José dos Ausentes. Com 28 metros de altura, o cachoeirão é formado por uma sucessão de grandes quedas. A caminhada é curta e parte da fazenda com o mesmo nome, acompanhando o rio Silveira. Fica a 33 km da cidade. Apesar de um lindo poço, o banho é para os mais corajosos, pois a água é gelada
Desnível dos Rios A visão é intrigante, só mesmo a natureza para produzir imagens tão belas. De um morro se contempla o balé dos rios Divisa e Silveira, que correm lado a lado, mas com uma diferença de 18 metros de altura. Em períodos de fortes chuvas, as águas de um dos rios transbordam e chegam ao outro leito em forma de corredeiras. A caminhada é fácil e parte da Fazenda Potreirinhos. Fica a 33 km da cidade
Monte Negro É o ponto mais alto do Rio Grande do Sul. Chega-se de carro bem próximo ao topo dos paredões, o que torna a caminhada bem fácil. É possível explorar a região andando bem na borda do cânion. Já o acesso ao pico do monte (1.403 m), demanda preparo físico e fôlego. A subida íngreme e a altitude exigem muito do aventureiro. Mas a vista recompensa, pois lá do alto é possível ver melhor as fendas dos cânions e ter a sensação de que o chão foi rachado. O melhor horário de visita é bem cedinho, antes do fenômeno da viração. Fica a 45 km do centro da cidade e o acesso é pela estrada municipal Silveira e depois por dentro de uma fazenda
Perau Branco São duas formações rochosas com mais de 30 metros de altura no leito do rio Sepultura. A cascata fica a 38 km do município, com acesso pela estrada geral Várzea
Trilha das Cachoeiras Feita ao redor do Sítio Vale das Trutas brinda os visitantes com uma cachoeira atrás da outra, algumas serviram de cenário na minissérie ‘A Casa das Sete Mulheres’. Cachoeiras do Musgo, da Saracura, da Curruíra, do Campestre, do Bandeira e do Juvenal. É um trekking para ser feito em cerca de cinco horas, melhor em dias quentes
Caminhadas e cavalgadas ecológicas Diversas trilhas a pé podem ser combinadas com guias locais, como a da Cascata do Funil, da Cachoeira do Puma e da Cachoeira do Dez. E cavalgar pelas paisagens de São José dos Ausentes é uma ótima terapia. Os animais oferecidos pelas pousadas costumam ser dóceis e acostumados com pessoas sem experiência de montaria. Os passeios passam por trilhas em meio a lindas paisagens
Museu Waldemar dos Santos Boeira Localizado na pitoresca Vila do Silveira, conta com um acervo de mais de cinco mil peças dos primeiros moradores da região, como utensílios usados nas lidas campeiras, móveis, objetos de decoração, livros, fotografias e diversos documentos. Está abrigado na sede de uma fazenda do século 18 e funciona mediante agendamento. Tel: (54) 3883-1030
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Árvores e vida cultural agitada encantam os turistas em Porto Alegre

Dá trabalho fotografar Porto Alegre. Tem árvore demais. O turista quer registrar a fachada do museu ou restaurante de que mais gostou e vê árvore na frente, dos lados, nos fundos, vê galhos frondosos esparramados sobre as mesas dos bares nas calçadas. O excesso de verde quase esconde Porto Alegre, ou melhor, revela uma cidade grande especial, que cultua os parques e a companhia de um lago gigantesco, o Guaíba, para espairecer do concreto. A capital do Rio Grande do Sul se alimenta de uma intensa vida cultural e do orgulho de ter mais de um milhão de árvores para exibir aos visitantes, dois tipos distintos de oásis no meio do caos urbano.

A vida cultural ganhou em 2008 um museu de padrão internacional, a Fundação Iberê Camargo, com projeto arquitetônico do português Álvaro Siza. Não bastasse a elegância das linhas das paredes brancas, o museu ainda se encaixou numa paisagem privilegiada, na orla calçada do Guaíba. Expõe regularmente o acervo do pintor Iberê Camargo, falecido em 1994, aos 79 anos, e também mostras de artistas nacionais e estrangeiros.

Quem escolhe o segundo semestre para conhecer a cidade consegue fugir do frio, que pode ser intenso, de junho a agosto, e aproveita os grandes eventos de teatro, literatura e artes visuais que são o Porto Alegre Em Cena, a Feira do Livro e a Bienal do Mercosul, esta em anos ímpares. O verão costuma ser sufocante. Pelo menos não falta sombra.

Setembro também traz a primavera, os jacarandás floridos e o Acampamento Farroupilha, no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho. O evento reproduz os galpões, os passeios a cavalo e as tradições gaúchas nas roupas, na gastronomia e na música nativista. Parece um outro tempo, arquetípico, injetado nas artérias da cidade.

Na comparação com capitais de grandes dimensões como São Paulo ou Florianópolis, Porto Alegre parece concentrar suas atrações em poucos quilômetros. Dá a impressão de que tudo fica perto, a poucos minutos de táxi, de lotação (um tipo de microônibus) ou de ônibus – o transporte público é eficiente. Visitantes instalados em hotéis de bairros como o Moinhos de Vento, a área nobre da cidade, ou a Cidade Baixa, que é a parte antiga, dispõem de uma vasta oferta de restaurantes, lojas, teatros, casas noturnas e dos passeios a qualquer hora do dia nos parques Farroupilha e Parcão.Os parques e praças não são cercados, o que desaconselha a freqüência noturna. O Farroupilha tem monumentos importantes, pedalinho no lago, minizôo com aves e macacos e leva ao Brique da Redenção, uma feira de antiguidades aos domingos. O Parcão, apelido do Parque Moinhos de Vento, é vizinho da ‘Calçada da Fama’, a rua Padre Chagas, uma miniatura da paulistana Oscar Freire.

No Centro, não deixe de visitar o Mercado Público e o Santander Cultural, duas preciosidades restauradas. O Mercado data do tempo da escravidão. O imenso quadrado tem quatro entradas, e na encruzilhada dos caminhos, conta a lenda, repousa a Pedra do Bará, um orixá que energiza e protege quem circula por ali.

Porto Alegre e Região Metropolitana são importantes polos das religiões afro-brasileiras. Em meio a açougues, peixarias, fruteiras, delicatessen e lojas de bebidas, o Mercado também abriga rituais de iniciação de pais-de-santo. E um bar com mais de 100 anos, o Naval.

Outro programa divertido na região central é pedir autógrafo para os poetas Mario Quintana e Carlos Drummond de Andrade, num banco da Praça da Alfândega. Eles não vão dar autógrafo: estão lá erguidos em bronze, para a posteridade, mas se deixam tocar, abraçar, fotografar. Não faz muito tempo furtaram o livro (em bronze) que Drummond segura, em pé, como que lendo a página para o poeta gaúcho, sentado. Vem da obra do adorável Quintana uma dos versos mais ferozes e sintéticos sobre a luminosidade milagrosa que conforta os moradores do sul do mundo no outono e na primavera:

‘Adiados os suicídios
Porque é abril em Porto Alegre’

Em qualquer estação do ano, moradores e turistas convergem em bandos para o pôr-do-sol mais concorrido da cidade, na avenida Beira-Rio, perto da Usina do Gasômetro. Não tem mar, como em Jericoacoara ou Ipanema, mas os reflexos que a luz do final do dia despeja sobre as águas do Guaíba são de fazer engasgar o chimarrão. Para esses momentos especiais carrega-se o kit da bebida típica: cuia com a erva-mate esculpida no topo (ela é a prova de vento, curiosamente), bomba prateada, garrafas térmicas.

O final de 2008 também trouxe de novidade uma megadanceteria, a Café Segredo, na Cidade Baixa. Além de ‘gay friendly’, o bairro está ficando com fama de trendy, ou fashion, ou descolado, no português dos clubbers. Concentra dezenas de bares, botequins e casas com música ao vivo entre as ruas João Alfredo, Lima e Silva e República, essa a mais arborizada e bonita do pedaço.

Porto Alegre produz e consome muita música. Na terra de Lupicínio Rodrigues e Elis Regina, e de Wander Wildner e Papas da Língua, existem dezenas de palcos para shows e uma variedade impressionante de bandas locais, ritmos e estilos, de segunda a domingo. Rock?n?roll, blues, jazz, bossa nova, pagode, chorinho, MPB. Samba de raiz, samba-rock, black music, reggae, funk, hip hop. Sem esquecer o repertório nativista, acompanhado de danças típicas, disponível em shows dos CTGs (centros de tradição gaúcha).

Viu só? Não é verdade que a principal vantagem turística de Porto Alegre é estar localizada a apenas hora e meia de carro de Gramado ou duas horas de vôo de Buenos Aires. Isso é só uma gozação. Bem típica, aliás, do humor local, que é autodestrutivo, como as discussões entre gremistas e colorados. Dependendo do foco da viagem, se são os museus, os parques ou a vida noturna, uma passagem de dois ou três dias (na volta da Serra Gaúcha ou de Buenos Aires) mal dá tempo de fazer a digestão do churrasco. Em tempo: para os gaúchos mais radicais, salada é perda de tempo. A salada só retarda a comida, que é a carne.

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História, tradição e doces fazem de Pelotas um lugar incrível para se visitar em qualquer estação do ano

Andar pelo centro de Pelotas é reviver e imaginar como era a sociedade que morava por lá no século 19, época do comércio da carne de charque, que levou muita riqueza e poder ao município. Os prédios e casarões espalhados pelas ruas são a memória do luxo e ostentação importados da Europa pelas abastadas famílias proprietárias de charqueadas. Vale a pena continuar com esse olhar histórico na Rota do Charque, onde se percorre os aposentos decorados da Charqueada São João, cenário da minissérie ?A Casa das Sete Mulheres?, e realiza-se um passeio de barco pelo Arroio Pelotas, que faz margem com outras antigas charqueadas.

A cidade também é conhecida como a Capital Nacional do Doce, resultado da deliciosa herança que os imigrantes portugueses deixaram. As receitas de fios de ovos, babas-de-moça, camafeus e papos-de-anjos foram desenvolvidas ao longo dos anos, junto com outras guloseimas trazidas por alemães e franceses, e logo Pelotas se tronou produtora de doces em escala industrial. Não dá pra voltar de viagem sem ter provado um docinho da região.

Os pelotenses são muito ligados à cultura e a tradição, fato que se comprova com as festas tradicionais gaúchas e o consumo ritualístico do chimarrão, uma bebida típica de erva mate, em que a erva é colocada em uma cuia e se repõe com água quente toda vez que acaba o líquido. O povo ?mateia? (toma a erva mate) durante o dia todo e em qualquer lugar. Eles carregam uma espécie de sacola de couro, chamada de mateira, que contém a erva, a cuia e a garrafa térmica. Existe um ritual coletivo na maneira como se consome o chimarrão, com regras estabelecidas pelos gaúchos, que eles respeitam religiosamente. Por exemplo, numa roda de gente, a cuia é compartilhada por todos, mas só se pode oferecer a cuia ao próximo quando já se terminou de beber todo o chá dela. A água quente é recolocada e a pessoa seguinte toma a bebida inteira.

Por ser localizada no extremo sul do Brasil, Pelotas tem fama de ser um lugar para se passar muito frio. De fato, no inverno os termômetros ficam constantemente abaixo dos 10°C e chegam a cair para os gelados 0°C. Mas no verão o sol aquece bem e a Praia do Laranjal fica lotada de locais e turistas que aparecem para celebrar a Festa dos Navegantes e o Carnaval.

É impossível não se encantar com a cidade e seu povo acolhedor. Depois de uns dias é provável que você comece a pegar o sotaque bem gaúcho e se vicie em chimarrão. Vai sair de Pelotas dizendo: ?Tchê, a guriazada desse lugar é tri-legal?.

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Parques, festas e chocolates são diversões para todas as épocas do ano em Gramado

Na Serra Gaúcha, Gramado combina o frio e a animação dos festivais periódicos com o jeito pacato de uma cidade do interior. Os vales de verde profundo e o azul das hortênsias compõem um cenário romântico, sob medida para luas-de-mel que também podem se tornar periódicas, como as festas que celebram o cinema, os deliciosos produtos da colônia, o Natal. Gramado se prepara de janeiro a dezembro para receber os turistas.

A cidade tem cerca de 32 mil habitantes e fica distante 115 km de Porto Alegre. Apesar de curta, a viagem desde a capital gaúcha separa temperaturas distintas. O inverno em Gramado é rigoroso, com temperaturas abaixo dos 10ºC, e expectativa de neve. À noite, faz frio em todos os meses do ano. Quem chega acompanhado curte confortos diversos para se aquecer nos hotéis, pousadas e restaurantes: piscinas térmicas privativas, hidromassagem, lareira, fondue, vinho, chocolate quente.

Gramado divide com a vizinha Canela algumas novidades entre as atrações que encantam adultos e crianças. O Gramado Zoo dispõe de instalações modernas que permitem ver onças, pumas e macacos sem grades na frente, além de centenas de aves da fauna brasileira voando em grandes viveiros. Em Canela, o Alpen Park, o parque do trenó, inaugurou um cinema 4-D, anunciado como pioneiro no Brasil, cujos efeitos especiais permitem ao público sentir até a umidade e a ventania do filme na tela em semicírculo. Na estrada de Gramado para Canela, a fábrica Caracol instalou o espaço temático “O Reino do Chocolate”.Parques, aventura e chocolates são diversões para todas as épocas do ano, como o fondue suíço e as mesas fartas de café colonial, outras marcas de Gramado, estas associadas à colonização de imigrantes alemães, italianos e portugueses. Mas existe um pedaço do calendário em que a cidade gaúcha fica diferente de qualquer outra cidade brasileira: o Natal, festejado intensamente ali ao longo de dois meses, de novembro a janeiro.

Já verde por natureza, Gramado se veste de vermelho e dourado. As ruas, as praças, os lagos, as fachadas de lojas e hotéis, todos os cantos dão boas-vindas para Papai Noel e para os visitantes em busca de boas compras. Espetáculos de música, teatro de bonecos e shows de fogos reforçam o clima de contos de fadas, que sobrevive, de alguma forma, o ano inteiro, em espaços como a Aldeia do Papai Noel, um parque temático no centro da cidade. As renas ainda não puxam trenós pelos céus, mas elas estão lá, saltitantes, perfilando-se atrás do cercado coberto de pinheiros. E um senhor de capuz e barbas brancas legítimas também faz plantão diário para as fotos a poucos metros das renas, na Fábrica de Presentes.

Para quem está visitando a cidade pela primeira vez, um passeio de hora e meia na Jardineira das Hortênsias, o city tour oficial, dará a noção das distâncias entre cartões-postais como o Lago Negro e a rua Coberta, um retângulo de lojas e bares que recebe o tapete vermelho e os artistas durante o Festival de Cinema. As caminhadas ajudam a gastar as calorias acumuladas na gastronomia local, mas alguns trajetos são longos, com ladeiras íngremes. A fim de percorrer com calma as atrações, espichar até os belos parques de Canela e ainda conhecer o Vale dos Vinhedos e Aparados da Serra, é melhor alugar um carro. Outras alternativas são a linha de ônibus entre Gramado e Canela, com saídas a cada 20 minutos das respectivas rodoviárias, e os passeios em vans das agências de receptivo.

Arregalando bem os olhos, nota-se que inclusive locomotivas circulam em Gramado, com apito e tudo, e diz a lenda que elas pararam de circular quando os túneis se entupiram de neve no rigoroso inverno de 1994. São os trens em miniatura do Minimundo, um museu especialíssimo, ao ar livre, que reproduz monumentos, castelos e igrejas, a maioria europeus, em escala 24 vezes menor do que o tamanho original.

Se algumas cidades são definidas pelo engenho humano, como é o caso da Brasília de Oscar Niemeyer e de Foz do Iguaçu e sua Itaipu Binacional, Gramado conta com ajuda do Minimundo para se apresentar. A fantasia, o artesanato, a nobreza do trabalho braçal e sobretudo a dor da Europa perdida pelos imigrantes estão estampados no museu inaugurado em 1983. O fundador, o alemão Otto Hoppner, faleceu em 1986, mas os filhos e os netos deram sequência à sua arte, acrescentando ao acervo miniaturas de monumentos brasileiros e argentinos, além de publicações.

Em agosto, o Festival de Cinema movimenta a cidade há quase 40 anos. As TVs locais mostram diretores, atores, atrizes, cinéfilos e tietes desfilando com gorros, cachecóis, casacos de couro e lã no Palácio dos Festivais. O figurino, as discussões estéticas e as premiações injetam glamour na Serra Gaúcha. Em março, é a vez da Festa da Colônia, que se estende por três semanas na Praça das Comunicações, da manhã à noite. Corais italianos, bandas típicas alemãs e danças dos Açores celebram os produtos coloniais da zona rural que preservam a cultura dos imigrantes e movimentam a economia.

Os astros da Festa da Colônia são aquele suco de uva que parece conter o cacho engarrafado, uma cuca macia que combina vinho, banana e coco, os salames e queijos que vão fazer o turista voltar no ano que vem. Na avenida Borges de Medeiros, desfilam carretas decoradas com flores, puxadas por bovinos de pelo escovado, algo assustados com o asfalto, com os aplausos e com as centenas de moradores e visitantes apontando câmeras e celulares.

De avental, uma matriarca de duas gerações de agricultores levanta com orgulho um pão sovado de três quilos. Festas desde tipo também ajudam a lembrar do quanto pode ser dura a vida nas cidades turísticas.

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